terça-feira, janeiro 20, 2026

A Metamorfose - Franz Kafka

Terminei A Metamorfose com uma sensação estranha. Durante boa parte da leitura, a impressão foi simples e direta pois achei o livro chato, repetitivo e, em muitos momentos, sem sentido.

Dividido em três partes, o começo é esquisito. Gregor acorda transformado em um inseto grotesco e ninguém reage com o espanto que seria esperado. A família parece aceitar aquilo como um problema doméstico, quase como se fosse uma fase incômoda da vida, algo a ser administrado. Não há choque, não há desespero real, só adaptação e isso causa estranhamento, porque quebra qualquer lógica narrativa tradicional.

A segunda parte é ainda mais cansativa. Kafka passa páginas e páginas falando de móveis sendo retirados, objetos mudando de lugar, do quarto se esvaziando. Parece que nada acontece. Gregor anda pelas paredes, pelo teto, mesmo sendo um corpo que mal consegue se mover. Tudo soa repetitivo, arrastado, quase irritante. É fácil perder a paciência ali.

Mas o livro não está interessado em ser agradável. É só na terceira parte que tudo se encaixa. E encaixa com violência silenciosa.

A família já não reage, já não tenta entender pois a transformação vira rotina. Gregor deixa de ser problema e passa a ser peso. Até que, num momento aparentemente banal, ele provoca a perda dos inquilinos da casa. É aí que a sentença é dada. A irmã, que antes cuidava dele, verbaliza o que todos já sentiam, que aquilo já não era mais o irmão, era algo a ser eliminado.

Não há assassinato explícito. Não há ódio. Há cansaço. E isso é muito pior.

É nesse ponto que o livro deixa de ser “chato” e passa a ser brutal. Porque a história não é sobre um homem que vira inseto, é sobre um ser humano que perde sua função. E, ao perder a função, perde também o lugar, o afeto e o direito de existir.

Kafka escancara uma ideia desconfortável, o valor do indivíduo, para a sociedade e até para a família, está profundamente ligado à sua utilidade. Enquanto Gregor sustenta a casa, ele é tolerado, respeitado, necessário. Quando isso acaba, ele vira fardo, e fardos são descartados.

O mais importante de A Metamorfose não está na leitura em si, mas no que ela provoca depois. O livro não emociona, não empolga e não entretém, ele incomoda. E só faz sentido quando toca em algo real. Quando o leitor se reconhece, ainda que contra a própria vontade. Porque, em algum momento da vida, muita gente se sente como Gregor, sem função clara, dependente, pesando para os outros, invisível. E a pergunta que fica não é literária, é humana:

O quanto do nosso valor está condicionado ao que entregamos?

Kafka não oferece resposta.
Ele apenas mostra o resultado quando essa lógica vence.
Talvez por isso o livro seja difícil de gostar.
Mas impossível de ignorar depois que faz sentido.

O final do livro pega justamente porque ele não oferece catarse. Não há redenção, não existe aprendizado bonito e muito menos a sensação de que “vai ficar tudo bem”. Kafka apenas mostra o que acontece quando alguém é reduzido a peso e quando essa ideia atinge quem já se sentiu assim em algum momento da vida, pois o impacto vem forte, quase físico. 

A história termina deixando o peso onde ele caiu e por isso que faz o livro incomodar tanto.

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domingo, janeiro 18, 2026

O Silencio


Silêncio não é ódio. É desligamento.

Não é raiva.
Raiva faz barulho.
Raiva pede palco, resposta, explicação, confronto.

O que vem depois é outra coisa.
Silêncio não nasce da força, nasce do cansaço.
Cansaço de tentar caber, de traduzir sentimento, de explicar o óbvio para quem nunca quis entender.

Quando fiquei em silêncio, não foi estratégia.
Foi limite.

Não foi castigo, foi economia.
Economia de energia, de palavras, de expectativa.
O desligamento não acontece de uma vez.
Ele começa no corpo.
Um aperto no estômago.

Um enjoo estranho.
Uma vontade de virar o rosto.
Uma preguiça emocional que não tem mais volta.

A gente não odeia quem se desligou.
A gente só não consegue mais sustentar.

Silêncio também é resposta porque ele diz tudo sem precisar ferir.
Diz “não me cabe mais”.
Diz “não quero”.
Diz “não preciso”.
Diz “já foi”.

Quem confunde silêncio com fraqueza ainda vive da reação do outro.
Quem aprende o silêncio já entendeu que nem tudo precisa de desfecho público.

Desligar não é apagar o que existiu.
É parar de alimentar o que machuca.

E talvez esse seja o gesto mais honesto que alguém pode fazer consigo mesmo
Não gritar, não atacar, não provar nada.
Apenas soltar.

O resto se resolve no tempo.

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quinta-feira, janeiro 15, 2026

Guerras Secretas - 1984


Guerras Secretas é uma daquelas histórias que todo fã da Marvel acaba lendo mais pela fama do que pela promessa de uma grande narrativa. Ela é importante, histórica, marcou época e mudou coisas fundamentais no universo Marvel, mas relendo hoje fica claro que o peso histórico não se traduz, necessariamente, em uma boa história.

Parte disso se explica pela própria origem do projeto. Guerras Secretas foi encomendada para a criação e venda de action figures. A ideia veio do departamento comercial, e o roteiro precisou se adaptar a isso. Era necessário colocar o máximo possível de heróis e vilões juntos, em um mesmo cenário, lutando entre si. O resultado é uma história que parece muito mais uma grande arena de batalha do que uma narrativa bem construída, o que ajuda a entender a simplicidade do enredo e a previsibilidade dos conflitos.

A premissa é direta ao extremo quando heróis e vilões são levados para um planeta artificial, precisam lutar, e o vencedor teria seus desejos atendidos. Não há grandes reviravoltas, nem camadas morais mais profundas. Os vilões são chatos e previsíveis, mas cumprem sua função básica de gerar confrontos, porem, eles não empolgam, mas são necessários para movimentar a trama.

Um dos pontos mais frustrantes da leitura é o tratamento dado ao Beyonder. Muito se falou dele na divulgação da época, foram lançados bonecos e criado todo um mistério em torno da entidade, mas, na prática, ele quase não aparece de forma ativa na história. O Beyonder funciona mais como um conceito abstrato, uma força observadora que manipula o tabuleiro à distância. A Marvel só viria a desenvolver o personagem de maneira mais concreta em histórias posteriores. Isso cria um descompasso claro entre o que foi vendido no marketing e o que o roteiro entrega, o que gera uma sensação legítima de frustração.

O final da história segue essa mesma linha de decepção. Tudo se resolve de maneira rápida, simples e até estranha. O Beyonder recuperar seus poderes era algo esperado, mas a forma como isso acontece carece de impacto. A sensação é de encerramento apressado, sem um clímax realmente marcante.

A arte também reflete o período em que a HQ foi produzida. Os desenhos são simples, funcionais e claramente datados. Não chegam a comprometer a leitura, mas também não impressionam. Dentro do contexto de 1984, cumprem seu papel, mas estão longe de serem memoráveis.

Entre os pontos positivos, o grande destaque vai para o Capitão América. A liderança dele é impecável do início ao fim. Ele toma decisões difíceis, assume responsabilidades e enfrenta um destino praticamente onipotente sozinho, sem discurso vazio ou heroísmo exagerado. Ele simplesmente faz o que precisa ser feito. É o tipo de atuação que reforça por que ele é um dos pilares morais do universo Marvel.

Reed Richards também rouba a cena em diversos momentos. Inteligente, estratégico e racional, ele deixa claro por que é o líder natural do Quarteto Fantástico. Sempre que Reed e Capitão América estão em evidência, a história ganha outro nível. Fica evidente que eles não são líderes por acaso, mas porque entendem o jogo melhor do que todos ao redor.

O surgimento do uniforme negro do Homem-Aranha, apesar de icônico historicamente, é narrativamente fraco. Não há impacto emocional nem grande construção. O uniforme surge de forma quase banal, quando Peter Parker manda fazer outro na máquina errada apenas porque seu traje havia sido danificado. Ai ele recebeu o simbionte sem querer. O peso simbólico desse uniforme só seria explorado de verdade em histórias posteriores. Obs: nós sabemos que é o simbionte, na historia, não existe nada disso, nenhuma referencia do que realmente aconteceu.

A participação dos X-Men também causa estranhamento. A falta de ação e negligencia  inicial do grupo e a aliança com Magneto são pouco explicadas e carecem de coerência. Fica a sensação de que suas ações foram definidas mais por conveniência de roteiro do que por motivações bem trabalhadas. Xavier negou ajuda aos Vingadores simplesmente porque quis.

A presença de Galactus ajuda a reforçar o clima de guerra total e de mundo hostil, no qual ninguém está realmente seguro. Esse aspecto funciona bem e contribui para a sensação de conflito em larga escala. Um detalhe importante, muitas vezes ignorado, é o papel da alienígena Zsaji. Sem ela, os heróis simplesmente teriam perdido. Ela cura diversos personagens ao longo da história e, no final, sacrifica a própria vida para salvá-los. É um sacrifício silencioso, pouco celebrado, mas absolutamente decisivo para o desfecho.

Outro ponto que chama atenção é o uso completamente irregular de personagens, como a Mulher-Aranha e o Homem de Gelo. A Mulher-Aranha simplesmente aparece no Mundo Bélico usando um uniforme negro, extremamente forte, participando dos conflitos como se sempre tivesse estado ali, sem qualquer explicação prévia ou contextualização mínima. Nenhum herói a conhecia e ela foi trazida pra muvuca aleatoriamente. Ela surge do nada, age como peça importante em alguns momentos e pronto, o leitor que aceite. 

Já o caso do Homem de Gelo é ainda mais estranho. Diferente de outros personagens esquecidos pelo roteiro, ele nem sequer foi teletransportado para o Mundo Bélico. Ele simplesmente não faz parte da história, não aparece, não é citado e não tem qualquer participação. Ainda assim, ganhou action figure vinculada a Guerras Secretas, o que deixa claro que não se trata de uma falha narrativa pontual, mas de uma decisão puramente comercial. A linha de brinquedos precisava representar o “universo Marvel” como um todo, independentemente da coerência interna da HQ. Esses exemplos deixam evidente como o evento priorizou a vitrine de personagens em detrimento de uma construção narrativa consistente, reforçando a sensação de que a história foi moldada mais para o marketing do que para o roteiro. Obs: eu comprei essa versão do homem de gelo, é maravilhosa e no encarte esta escrito que ele tem participação na historia porem ele não esta la. Ate agora to sem entender.

No fim das contas, Guerras Secretas é mais importante pelo que representou e pelo que gerou depois do que pela história que conta. Como marco histórico, é fundamental. Como narrativa, é fraca e simplista. Por isso, a nota final fica em 3,5 de 5, não por causa da arte, mas principalmente pelo roteiro raso e pelo desfecho estranho e decepcionante e pequenas falhas.

Vale a leitura pelo contexto e pela importância histórica, mas é bom ajustar as expectativas. É um clássico, sem dúvida. Uma grande história, nem tanto.

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quarta-feira, janeiro 14, 2026

Descondicionamento



Não sinto falta de migalhas.
Nem do mínimo.
Nem da confusão disfarçada de intensidade.

Não sinto falta da incoerência.
De hoje ser uma coisa
E amanhã outra completamente diferente.
De nunca saber onde está pisando.

O cenário era um caos, sim.
Instável, imprevisível.
E viver tentando organizar sozinho
Algo que nunca foi consistente.

A saudade que aparece não é da pessoa.
É do intervalo entre os conflitos.
Do silêncio depois da briga.
Da falsa sensação de que, se eu insistisse mais um pouco,
Dessa vez iria se sustentar.

Precisei cobrar o básico.
E precisei cobrar constância.
E precisei cobrar coerência.
E isso, por si só, já diz tudo.

Hoje consigo entender
Não perdi paz, perdi hábito.
Não perdi amor, perdi costume.
Não perdi futuro, perdi uma ilusão.

Não é falta.
É descondicionamento.

E passa.
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terça-feira, janeiro 13, 2026

O livramento que quase não percebi


Por pouco eu fiz a maior besteira da minha vida achando que era amor.

Por pouco eu mudei tudo acreditando que estava salvando uma relação, quando, na verdade, eu estava me apagando para caber.

Não foi uma decisão simples, nem repentina.
Foi pressão aos poucos.
Disfarçada de escolha.
Disfarçada de “se você quisesse, faria”.
Disfarçada de amor.

Mudar de cidade.
Largar o que eu tinha construído.
Recomeçar do zero em um lugar que nunca foi meu.
Tudo isso como prova de sentimento, enquanto eu sentia, cada vez mais, que estava sendo colocado contra a parede.

Não era convite.
Era ultimato.

Hoje eu consigo ver com clareza o roteiro que estava se formando.
Eu iria.
No começo, tudo pareceria certo.
Depois viriam as cobranças, as implicâncias, os jogos emocionais.
Eu começaria a andar pisando em ovos.
A me defender por existir.
A grilar.
A reagir.

E, como sempre acontece nesses casos, o papel já estava reservado
O vilão seria eu.

Não seria um término simples.
Seria um desgaste calculado.
Até eu cansar.
Até eu desistir.
Até eu sair quebrado, confuso, sentindo culpa por algo que nunca foi só meu.

Eu voltaria para casa dos meus pais pela segunda vez.
Mais destruído do que estou hoje.
Carregando a sensação de fracasso, não só de um relacionamento, mas de mim mesmo.

E o mais duro de admitir
enquanto eu ainda tentava salvar, entender, insistir…
já existiam substituições sendo testadas.
Outras opções sendo alimentadas.
Outros planos sendo preparados em silêncio.

Isso não começou ontem.
Só terminou ontem.

O cara novo não é o ponto central dessa história.
Ele é só a prova de que o desfecho já estava desenhado.
Enquanto eu pensava em mudar minha vida inteira, o outro lado já ensaiava o próximo capítulo.

Não foi um fim bonito.
Não foi limpo.
Não foi justo.
Mas foi um livramento.

Um livramento que dói, porque não veio com alívio imediato.
Veio com raiva, frustração e sensação de perda.
Mas, ainda assim, livramento.

Algumas coisas não dão certo para não acabar com a gente.
Algumas portas se fecham porque, se tivessem sido atravessadas, o estrago seria maior do que a dor de agora.

Hoje eu entendo
Não perdi uma vida.
Escapei de perder a minha.

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segunda-feira, janeiro 12, 2026

Quando a ficha cai tudo faz sentido


Eu aguentei pressão por meses.

Pressão financeira, pressão emocional, pressão dentro de casa, pressão de tentar manter algo que já estava se desfazendo sem eu perceber.

Enquanto eu tentava consertar, ela trocava meu nome.
Enquanto eu insistia, ela mandava mensagem errada pra mim que era pra outro cara.
Enquanto eu me explicava, ela ameaçava arrumar outro, me trocar como se eu fosse um objeto, como se eu tivesse que aceitar qualquer coisa pra não perder.

E eu aceitei demais.

Hoje fica claro o que antes doía mas eu não queria ver
Ela já estava se desligando fazia tempo.
Não foi de ontem.
Não foi do nada.
Foi planejado em silêncio.

Esse cara não surgiu agora.
Esse cara já estava ali, sendo alimentado, sendo flertado, sendo colocado como alternativa enquanto eu ainda estava tentando ser solução.

E o mais revoltante não é só ela estar com outro.
É perceber que eu fiquei oito meses esperando, respeitando, segurando desejo, segurando impulso, segurando tudo…
pra agora ver outro cara chegar e aproveitar o que eu segurei e aguentei.

Isso dói no ego.
Dói na masculinidade.
Dói na alma.

Dá raiva. Dá nojo. Dá sensação de ter sido feito de otário.

Ela posa de vítima, mas eu vejo agora
Pra sair limpa, alguém precisava ser o vilão.
E esse alguém fui eu.

Enquanto eu apanhava emocionalmente, ela se preparava pra cair na lábia de outro.
E caiu.

Não é amor.
É vazio.
É fuga.
É troca rápida pra não lidar com nada.

Mas saber disso não tira a dor.
Saber disso não apaga a imagem.
Não apaga o coraçãozinho.
Não apaga o fato de que hoje sou eu aqui, tentando respirar, enquanto outro cara tá se beneficiando de algo que eu defendi.

Eu tô puto.
Muito puto.
E tenho direito de estar.

Não porque perdi ela.
Mas porque perdi tempo acreditando que eu era o problema, quando na verdade eu só estava atrasado pra descobrir a verdade.

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quarta-feira, janeiro 07, 2026

A Psicologia Financeira

A PSICOLOGIA FINANCEIRA
Morgan Housel

Desde as primeiras páginas de A Psicologia Financeira, ficou claro que o livro não estava interessado em ensinar ninguém a ganhar mais dinheiro. A proposta era outra. Em vez de investimento, planilha ou fórmula de sucesso, o foco estava no comportamento humano depois que o dinheiro entra em cena.

Esse estranhamento inicial não veio como rejeição, mas como alerta. O livro desmonta, com bastante naturalidade, a ideia vendida por podcasts e “especialistas” de que sucesso financeiro é resultado direto de disciplina, inteligência acima da média ou método infalível. O que mais chama atenção é o espaço que o autor dá a fatores quase sempre ignorados nesses discursos, como sorte, acaso e contexto.

Ao longo da leitura, fica evidente que genialidade não garante estabilidade financeira. Um gênio pode ser um desastre com dinheiro. Da mesma forma, uma pessoa comum, sem formação acadêmica, pode se tornar milionária dominando poucas habilidades básicas. Isso não é romantização da ignorância, é constatação comportamental.

O ponto que mais pesa é o fator sorte. Morgan Housel trata a sorte não como detalhe, mas como elemento estrutural do sucesso financeiro. Estar no lugar certo, no momento certo, com acesso às oportunidades certas, muda completamente o jogo. Ignorar isso é criar narrativas injustas e irreais.

Outro aspecto fundamental é o tempo. Não o tempo como urgência, mas como aliado silencioso. A construção de patrimônio está muito mais ligada à permanência, à paciência e à capacidade de não destruir o que foi conquistado do que a grandes decisões brilhantes. O tempo trabalha a favor de quem entende isso, e contra quem busca atalhos.

Quando o livro entra no tema dos investimentos, essa lógica fica ainda mais clara. Uma das receitas mais consistentes do sucesso financeiro é simplesmente deixar o dinheiro parado por anos, permitindo que o tempo faça o trabalho pesado. Não se trata de movimentos geniais, de acertar o momento exato do mercado ou de decisões brilhantes constantes, mas de resistir à tentação de mexer, sacar ou reinventar tudo a cada crise. O crescimento acontece devagar, quase invisível, e justamente por isso muita gente abandona o processo antes de ele mostrar resultado.

Nesse ponto, a concordância com o livro se consolida. Principalmente quando ele deixa claro que exceções não devem virar modelo padrão. Casos fora da curva não servem como regra, nem como material de estudo universal. Ainda assim, são exatamente esses casos que muitos coaches usam como prova de que “qualquer um pode”, ignorando tudo o que não cabe na narrativa de palco.

O problema não é se inspirar em histórias de sucesso. O problema é vendê-las como promessa. Quando se usa a exceção como regra, o discurso deixa de ser educativo e passa a ser enganoso.

No fim, A Psicologia Financeira não ensina como enriquecer. Ensina a pensar melhor sobre dinheiro, risco, comportamento e narrativa. E talvez seja justamente por isso que ele funcione tão bem porque não promete controle total sobre algo que nunca esteve totalmente sob controle.

domingo, janeiro 04, 2026

EUA X Venezuela


Neste fim de semana, os Estados Unidos voltaram a ocupar o papel que a América Latina conhece bem: o de força externa que decide agir militarmente em nome de uma suposta ordem maior. O alvo foi a Venezuela, e o discurso, mais uma vez, veio embalado em palavras conhecidas como democracia, estabilidade e proteção regional.

Esse roteiro não é novo. Ele vem diretamente da Doutrina Monroe, criada no século XIX sob a ideia de “América para os americanos”, mas que ao longo do tempo foi reinterpretada como “a América sob tutela dos Estados Unidos”. Sempre que interesses estratégicos entram em jogo, a soberania latino-americana vira detalhe.

No caso venezuelano, falar em interesse é inevitável. O país concentra algumas das maiores reservas de petróleo do planeta, além de recursos minerais estratégicos. Não se trata de altruísmo, nem de preocupação real com o povo venezuelano. Se fosse, a política externa americana teria outro histórico. O que move ações como essa não é a defesa da democracia, é a proteção de ativos, influência geopolítica e controle econômico.

Isso não significa ignorar quem governa a Venezuela. Nicolás Maduro é, sim, um ditador. Seu governo se sustenta com repressão, eleições questionáveis, controle institucional e perseguição à oposição. Negar isso é fechar os olhos para a realidade. Mas reconhecer a ditadura de Maduro não transforma automaticamente uma intervenção estrangeira em algo legítimo.

Ataques militares dos Estados Unidos a qualquer país latino-americano são uma afronta direta à soberania nacional e regional. A mensagem implícita é clara, que ainda existe um centro que se julga autorizado a decidir o destino dos outros. E isso carrega um peso histórico enorme para um continente marcado por golpes, intervenções e dependência forçada.

Mesmo quando há um tirano no poder, a guerra não é o caminho. Bombas não libertam povos. Sanções, invasões e operações militares quase sempre ampliam o sofrimento de quem já vive no limite. Defender esse tipo de ação como solução exige ignorar o impacto humano que vem depois. Crianças, civis, trabalhadores comuns pagam um preço que nunca entra nos discursos oficiais.

Independentemente de quem esteja certo ou errado no tabuleiro político, há um ponto que deveria ser inegociável: a vida humana não pode ser instrumento de estratégia. Quem celebra guerra, seja qual for o lado, perdeu algo essencial no caminho. Talvez empatia. Talvez memória histórica. Talvez humanidade.

A América Latina já viu esse filme vezes demais. E quase nunca termina bem para quem está do lado mais fraco da história.

sábado, janeiro 03, 2026

Correcao da Ultima Retrospectiva


Quero corrigir duas falhas que escrevi na minha ultima retrospectiva. Recebi alguns feedbacks de pessoas próximas que estavam preocupadas comigo, então resolvi pegar dois pontos principais do que escrevi antes e corrigi-los: relacionamento e financeiro. Não maquiar o que aconteceu ou que esta acontecendo mas atualizar para janeiro 2026 e expor a real situação de tudo.

Escrevi parte da minha retrospectiva durante todo ano e quando escrevi ainda estava preso a um sentimento que, na época, eu achava que era amor. Hoje entendo melhor, era apego, era medo de perder, era dificuldade de aceitar o fim.

O que vivi foi real, doeu, me marcou e exigiu mudanças profundas. Mas o tempo e os acontecimentos mostram coisas que a gente não consegue enxergar quando ainda está emocionalmente envolvido. Ver a vida seguir em direções diferentes não é fácil, mas também é esclarecedor. Algumas histórias não terminam por falta de sentimento, terminam porque não fazem mais sentido para quem a gente se tornou.

Hoje, não escrevo mais com a esperança de retorno, nem com raiva. Escrevo com lucidez. O que ficou para trás cumpriu seu papel. Agora, o compromisso é comigo, com minha reconstrução, minha estabilidade e minha paz.

O passado não precisa ser negado, mas também não precisa ser repetido.

Tive muitos problemas financeiros em 2025. Mas já to resolvendo.

Uma parte importante disso aconteceu porque tentei sustentar um relacionamento que já estava falido, mas que eu não conseguia enxergar como tal.

Passei meses viajando para outra cidade, tentando manter algo que já não me devolvia equilíbrio, apoio ou clareza. Fiz isso acreditando que era o certo, acreditando que insistir era prova de compromisso. Hoje vejo que era insistência no erro.

Trabalho com delivery e meu negócio depende diretamente de constância, ou seja, loja aberta, presença diária, manutenção de clientes. Durante esse período, fiquei fechado muitas vezes. Perdi ritmo, perdi clientes e perdi dinheiro. Não foi pontual, foi ao longo de todo o ano.

A pressão emocional, as cobranças e a instabilidade acabaram refletindo na minha saúde mental. Desenvolvi ansiedade, episódios depressivos e, mesmo estando na minha cidade, houve dias em que simplesmente não consegui abrir a loja. Não escrevo isso para transferir culpa. As escolhas foram minhas. Eu poderia ter agido diferente. Se pudesse voltar no tempo, não faria da mesma forma.

Fiz tudo acreditando que estava salvando algo. Hoje entendo que estava me afundando junto. Reconhecer isso não é rancor, é lucidez.

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quinta-feira, janeiro 01, 2026

Manual de Persuasao do FBI

Manual de Persuasão do FBI
Jack Schafer, Marvin Karlins

Terminar O Manual de Persuasão do FBI deixa uma sensação bem diferente da maioria dos livros de desenvolvimento pessoal. Não é inspirador, não é motivacional e definitivamente não tenta ser agradável. É um livro técnico, frio e direto, escrito a partir da prática, não da teoria.

Isso fica claro logo nas primeiras páginas. Não parece um livro pensado para o grande público. Em muitos momentos, a impressão é de estar lendo um material de treinamento que escapou de um ambiente interno e foi parar na livraria. Não há preocupação em suavizar conceitos nem em convencer o leitor de nada. As técnicas são apresentadas como ferramentas funcionais, usadas em situações reais, sob pressão real.

Talvez por isso ele cause certo desconforto. O livro mostra como rapport, empatia e confiança podem ser construídos de forma consciente, quase mecânica. Não como virtudes morais, mas como meios para alcançar objetivos específicos. Isso muda completamente o olhar de quem lê. Depois de alguns capítulos, fica difícil não começar a observar interações do cotidiano com mais desconfiança e, ao mesmo tempo, mais lucidez.

Ao contrário de livros como o do Carnegie, aqui a empatia não é tratada como algo nobre em si. Ela é uma habilidade operacional. Funciona porque funciona, não porque é bonita. E isso não torna o livro melhor ou pior, apenas honesto com sua origem. Ele não ensina como ser uma pessoa melhor, ensina como pessoas são influenciadas.

Por ser técnico, o livro também cansa. Há repetição, excesso de explicações operacionais e exemplos que exigem atenção constante. Não é uma leitura fluida nem leve. É um livro que pede distanciamento emocional e leitura aos poucos. Quando lido rápido demais, perde impacto e vira peso.

Ainda assim, o mérito está justamente aí. Jack Schafer e Marvin Karlins não escrevem para agradar. Escrevem para explicar como as coisas funcionam quando o objetivo é obter informação, gerar confiança ou conduzir uma conversa em ambientes de risco.

No fim, a melhor forma de ler esse livro talvez não seja tentando aplicar tudo, mas refletindo sobre o quanto dessas técnicas já fazem parte da vida comum. Quantas conversas são espontâneas e quantas são conduzidas. E, mais desconfortável ainda, quantas vezes a gente também já persuadiu alguém sem perceber.

Não é um livro para se sentir bem. É um livro para ficar atento.